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terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

10: Terceiro amor

Na primeira aula de terça-feira, antes que pudessem abrir os livros e o restante do material a professora fez um breve anúncio. Ao lado dela diante da turma estava o novo colega de aulas.
- Este é Michio Kondo, que veio da escola modelo do distrito vizinho. Sejam bons colegas e o recebam bem.
- Hai!
- Por favor, cuidem de mim. - Michio.
As primeiras palavras dele surpreendeu a turma e desconcertou a professora, de tão afetadas que eram. Hayato o analisou com cuidado. Por que não tentava sequer esconder sua condição? Era declaradamente um pervertido ou fazia parte das estatísticas dos que sofreram abusos? Koji olhava preocupado para o, ainda amigo, temeroso de que tivesse a mesma ideia. O que seria de si se Hayato falasse?
- Bem, Michio-kun, pode sentar-se naquele lugar vago.
- Hai
Ao passar por Hayato, com duas fileiras de distância entre ambos, piscou-lhe um olho. Logo a professora retomava o controle dos ânimos. No intervalo Koji e Hayato tentavam retornar ao convívio que tinham, e observavam juntos o novo colega, já tão íntimo das meninas.
- Ele parece tão bem com isso... - Hayato.
- Não tenha a mesma ideia. - Koji.
- Não, não.
- Por que as pessoas aqui não aceitam.
- Hai, eu entendo. Mas não seria melhor?
- Esta louco? Seriamos zoados eternamente. Adeus possibilidade de uma boa faculdade, de convívio social, e de bom emprego.
- Você está certo.
À distância Michio e as novas amigas riam e brincavam. Momento ou outro importunados por algum grupo de amigos.
- Hey Michio, como vai seu namorado?
- Eu não tenho namorado. Na verdade é uma garota impressionante. - Michio.
- Isso é verdade, Michio-chan? - Lain.
Michio fez pose de fisiculturista, com uma voz mais séria.
- Hai, hai. Claro. Ela tem dois metros de altura, e faz luta livre.
Ele colocava um belo sorriso no rosto a todo momento, e olhava para Hayato por sobre o ombro às vezes, mesmo constrangido aquela distância. As meninas, como mariposas, juntavam-se todas ao seu redor.
- Você o conhece de outro lugar? - Koji.
- Não. Acha que ele está… Esta a fim de mim?
- A verdade é que esta olhando demais pra cá… Cara.
Koji olhou desapontado para o amigo, ainda sem acreditar que alguém que conhecesse alguém a tanto tempo tivesse um segredo tão perturbador.
- Você tem certeza, Hayato-san? É assim mesmo que é e o que quer? - Koji.
- Hai, Koji-chan. Quero dizer, acho sinceramente que me precipitei com você. Era algo como… A Miyoshi na pré escola. Summimasen, Koji-chan.
- Não me chame mais de Koji-chan, Hayato-san. Sinto agora como se o desconhecesse…
- Hai, é muito bom ver que voltaram ao normal, Koji-chan, Hayato-chan. - Miyoshi.
No tempo seguinte era educação física, por ser já época fria, perto do inverno, usavam calças e camisas de manga curta. O apito da professora soou forte.
- Hayato, pra a quadra!
- Gommen, professora-sansei! Hoje, antes de vir senti caibras!
- Hai, hai. Descanse e mantenha-se aquecido, Hayato-kun.
- Hai!
Sentou-se na arquibancada, assistindo-os jogar. Pouco depois, atrasado para a aula, entrou Michio pela porta principal. Hayato fez como se não houvesse visto, mesmo que tivesse procurado sentar-se ao lado dele. Mas então Michio puxou conversa com ele.
- Ah, que dia estranho… Nem quente e nem frio. Não dá pra sair de casa sem agasalho ou vesti-lo. Que dia estranho…
- Hai. - respondeu Hayato perguntando-se porque era com ele que o outro puxava assunto.
- Vi você no outro dia, quando vim conhecer a escola. Gomenasai novamente pela bola. - Michio. - Aquele que estava com você naquele dia, é o seu primo? Não parecia muito velho para ser seu pai.
- Ie.
- Que bom que tem um ani. Os meus já saíram de casa…
- Ele não é…
Hayato não terminou. Havia caído na armadilha e agora Michio sorria, discretamente.
- Você sempre estudou aqui? - Michio.
- Hai. - Hayato.
- E porque não faz educação física? Não gosta de esportes?
- Ie. Tenho uma condição de saúde que as vezes não me permite esportes.
- Ah, entendo. Eu não faço porque… uma coisa que todos os colégios anteriores me ensinaram é que aqueles que são diferentes não deve praticar esportes de contato. Se é que me entende… isso me ensinou o tempo que leva para um olho roxo desaparecer.
- Sinto muito.
- Você medo de mim, por que?
- Eu não tenho.
- Ah, tem sim.
- Eu só… não entendo…
- Por que gosto de garotos? Não é essa a questão. O fato é que eu deveria ter nascido mulher, e não um garoto. A verdade é que ninguém entende isso…
- Hai.
- Diga, Hayato-kun, você já beijou alguém?
- Hai! Já beijei muitas vezes, garotas, é claro!
- Hai, alguém experiente em beijos… Sua mãe não conta.
Michio olhava com aqueles pequenos olhos castanhos escuros, como se visse toda a alma de Hayato e pudesse flagrá-lo em suas mentiras. Ao olhar para Koji o amigo percebeu a atenção as suas ações. Michio seguiu-lhe o olhar e levantou-se de imediato.
- Olá Koji-chan! Não fique com ciúmes! Hayato-chan e eu estamos nos conhecendo melhor, e depois conversarei também com você! - Michio.
Tornou-se a sentar, com o mesmo sorriso misterioso. Hayato levantou-se repentinamente e os pés se  atrapalharam nos degraus, lançando-o de costas na fileira de baixo, e por pouco não acertou a cabeça ou machucou-se seriamente. Ainda mantinham distância e Koji observava o quão próximos ficavam.
- Oi, você está bem? - Michio.
- Apenas pare de dizer coisas como estas e estarei ótimo. - Hayato.
- Ah, não leve tão a mal… Afinal somos amigos e eu nunca faria algo pra prejudica-lo.
- Não somos amigos. Somos colegas de classe, e nada a mais.
Hayato afastou-se, pra depois esfregar o ombro dolorido da queda.
- Tão frio…

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ani = irmão mais velho

sábado, 16 de janeiro de 2016

09: Sacrifícios da carne

Para pagar pelo material de Hayato e os pais Kazuo teve de vender a tv e cogitava fazer o mesmo com o rádio. As notícias importantes poderia saber no trabalho e na banca de jornais de seu amigo. Venderia o apartamento se não morasse de aluguel, mas não deixaria que nada faltasse ao seu Hayato-kun, agora órfão, e aparentemente seu dependente. Portanto passara a cortar meia hora de seu almoço após as aulas para chegar o trabalho, e sair deste meia hora mais cedo, tomando o trem de mais cedo e podendo estudar. Era o único em quem Hayato poderia contar.
No trabalho não importava o quanto bocejasse, não cessava o ritmo de atividades, antes o contrário, redobrava esforços e tinha cada vez mais tarefas.
- Kazuo-san está se esforçando está semana, não é mesmo? - Naru.
- Hai! Devo esforçar-me pela empresa. Quem sabe uma promoção a vista. - Kazuo.
- Ah… quanto interesse… Antes de ser promovido deve deixar de ser um estudante.
- Hai! Apenas mais dois anos e poderei me formar.
- Ni? Acabaria em um ano e meio!
- Ah, higeki… Não pude fazer a última bateria de provas…
- Uma tragédia mesmo, ah… Mas hoje é final de semana de pagamento… Vamos fazer um happy hour!
- Bem gostaria, mas tenho mais contas do que gostaria, para pagar.
- Ah, não se importe com isso. Naru e eu pagamos as suas bebidas. Por favor, venha conosco. - Hosokawa.
- Se é colocado deste modo, então, arigato. - Kazuo
- Hai! - Naru.
Não era sempre que saia com o pessoal do trabalho e notava o desagrado daqueles que sabiam de sua escolha sexual. Mas no final das contas precisava mesmo de uma bebida e Naru e Hosokawa insistiam tanto que não tivera como recusar.
Saíram tão breve o expediente terminou, e a reunião fora a céu aberto, na cidade vizinha. Uma feira musical. As bancas de comida e bebidas foram enfeitadas com fitas e bandeira de todas as cores, e o correio secreto circulava constantemente para as entregas de cravos e rosas rosadas, amarelas e vermelhas - sem remetentes.
- O que quer beber? - Naru.
- Hai. Pode ser cerveja. - Kazuo.
- E vocês, querem algo?
- Hai! Pode ser uma água, ou um suco. - Hosokawa.
- Ah, qual é… Hoje começa o fim de semana. Mais duas cervejas!
Ela entregou as garrafas aos dois relutantes e seguiram a música até o centro da praça, onde poderiam dançar. Naru e Kazuo tomaram a iniciativa, e logo os outros se enturmaram com duas garotas para também dançarem a música a cada momento mais agitada, e a cada gole a cerveja se tornava mais reconfortante.
Hosokawa virou-se para uma murada baixa e vomitou, parte em cima do homem que irritou-se e o empurrou derrubando-o aos pés de Daichi e Naru. Kazuo de imediato empurrou-o de volta em defesa do amigo.
- Gomend
- Meu amigo não fez por mal, ele está bêbado, e lamenta muito o ocorrido.
A voz nada pacífica afastou o que queria brigar, achando que apanharia antes que pudesse defender sua honra.
- Daichi, ajude-me a coloca-lo de pé. - Naru.
- Ele tá muito mal, melhor o deixarmos em algum lugar. Você sabe onde ele mora? - Daichi.
Kazuo não tinha atenção a conversa, um homem de pouca barba lhe havia esbarrado e o analisava. Também analisou-o. Não parecia da cidade, deixava o cabelo crescido demais, e as sobrancelhas pareciam cuidadas.
Sem perguntarem-se os nomes se tocaram sem importarem-se com aqueles a volta. Sorvendo a língua um do outro como se fossem estas as últimas bocas beijáveis.
- Kazuo. Kazuo! - Naru.
- Hai. Summimassem. - Kazuo.
- Hosokawa não está bem. Precisa de um lugar calmo pra descansar.
- Eu sabia que Hosokawa não sabia beber… - Daichi.
- Hai. Levem ele pro meu apartamento. - Kazuo.
- Tem certeza? - Naru olhando o outro cara.
- Hai. Vou ficar aqui por um tempo…
Era mais que Kazuo esperava, embora o que lamentou tenha sido não poder ir para a sua casa com aquele sem nome. Não podiam deixar de se tocar e desse modo abriram caminho na multidão, as carícias, até um canto afastado e deserto. Sua cabeça flutuava com o álcool ingerido, sentou-se. Não conseguia livrar-se da camisa, o que fora bom ou não teria pudor algum em despir-se em público.
Não conseguia manter a cabeça no lugar, não emitia som algum além de suspiros. Estaria o outro mais sóbrio do que si? Esperava que sim, porque a muito não sabia mais o que fazer. Nem tentou resistir à liberdade do cinto, mas a mão em seu peito o enlouquecia. Parecia doloroso respirar.
- Você é tão lindo… Qual será o seu sabor?
A música lhe agitava os pensamentos. Hayato estava debruçado sobre si, por que? Hayato lhe batia uma, como tornara-se tão habilidoso? Hayato-kun, como e quando sua boca no seu corpo…
Kazuo lhe abraçou os ombros com os braços descoordenados, deixando que a long neck caísse no chão, quebrando-se. Levantou a cabeça, de olhos fechados, e viu mais estrelas do que haviam, pronto para abraçar o mundo ou ser derrotado por ele.
Percebendo que sugava tudo o que Kazuo lhe dera o homem beijou-o novamente para que nunca mais esquecesse tal sabor. Colocou-lhe a mão no saco, por dentro da roupa, a fim de ganhar uma punheta, era evidente o outro ter bebido demais para um bom boquete.
Colocou seu peito no dele, mesmo vestido era possível sentir um ao outro. Experimentou o ânus do outro. Seria estupro se ali fizessem? Se o deixasse ali após gozar, o outro consideraria ter sido estuprado?
Beijou-o novamente, arrancando o máximo de prazer que poderia, e deixou Kazuo com as roupas sujas de sua porra. Ele praticamente havia adormecido, de qualquer modo.

Kazuo não se recordou do acontecido, e tampouco tentara uma vez que a dor de cabeça o derrotava. Não encontrou a carteira no bolso, e não se importava, não tinha dinheiro algum. Demorou a chegar em casa, mas chegou, e ao ver sua cama ocupada por Naru e Hosokawa, e o sofá por Daichi deixou-se em qualquer canto da sala para descansar.
- Kazuo-san, você demorou. - Naru.
- Fala baixo, Naru, por favor… - Kazuo.
- Ah, vocês que não sabem beber e é minha culpa? Bem, vou cuidar de Hosokawa, ele está muito mal. Não nasceu pra bebida Que bom que estou aqui pra cuidar dele.
- Que bom… - Daichi.
Ela partiu, mas estar ali sozinho com Kazuo incomodava Daichi terrivelmente, já que era um machista hipócrita incorrigível.
- Kazuo-san. - Daichi.
- Hai. - Kazuo.
- Como consegue… Como pode conseguir… Ser tão próximo a rapazes?
- Eu apenas sou, Daichi… Não é algo que possa controlar ou escolher… Não me confortaria com garotas.
- Mas… É tão anti natural…
- É, sei disso. Acho que nasci pra ser contra a natureza, no final das contas…
- Então, não acha que seria mais feliz com uma quente mulher entre os braços?
- Sei que seria muito infeliz.

Quando acordaram novamente por volta de uma da tarde e Naru preparava algo leve que pudessem comer.
- O que esta preparando? - Daichi.
- Não havia muita coisa, por isso vamos comer caldo de cebolas temperado com alho. - Naru.
- Que seja, estou mesmo faminto. - Kazuo.
- Cadê a sua tv? - Daichi.
- Eu a vendi.
- Vendeu a tv?
- Eu precisava de uma grana.
- O que está acontecendo, Kazuo-san? Reprovou na faculdade e vende as coisas de casa…
- Está usando drogas? - Daichi.
- Não! Queria eu ter o dinheiro que se gasta com drogas…
- Então, o que é? - Naru.
- Kazuo baixou a cabeça, pedindo desculpas por algum incomodo.
- Hai. Preciso guardar dinheiro, por isso busco poupar, e terminar a faculdade para um para um melhor cargo. Gommenasai.
- Eu não entendi, mas está bem. - Hosokawa.
- Hai. Eu vou tentar ajudá-lo com os estudos. Pode contar comigo com a faculdade…
- Fala sério?
- Hai. Você não vai mais reprovar até o final dos cursos.
- Arigato, Naru-sensei.

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Higeki
Tragédia.

domingo, 10 de janeiro de 2016

08: Ainda somos amigos?

O dia no colégio terminou mais solitário do que nunca. Koji lhe evitava, e ele evitava os amigos de ambos. Voltou para casa caminhando, e chegou com as pernas doídas. Era geralmente Koji quem o acompanhava, na ida e no retorno, o levando em pé na roda traseira da bicicleta, conversando sobre tudo.
A luz da sala estava acesa. Seus pais certamente estavam em casa. Poderia esperar que estivessem ansiosos por uma conversa, ou seu pai lhe aguardava com o cinto em mãos? O que Kazuo ouvira rispidamente? Gostaria de falar com Kazuo, mas o número de sua casa ficara gravado no celular dele quando ligou para a haha, apenas. E não tinha seu número.
- Baka. - Hayato.
Não havia outro modo. Pegou a chave escondida no terceiro vaso das violetas de sua mãe, girou a chave e entrou, trancou a porta novamente e descalçou-se.
- Tadaima! - anunciou.
A mãe passou de um extremo da cozinha ao outro, ansiosa para ver o filho com quem estava desapontada. Hayato notou que ela - nunca antes distante do filho único por um dia - olhou no máximo para seus pés de meias, sem coragem de encarar alguém como ele. O pai não tivera qualquer reação parecida com a da mãe, e tampouco diferente. Se não o ouvira não o olhava, e se não o olhava não poderia sentir algo. Mas Hayato sabia ser o contrário.
Preferiu não insistir e foi direto para o quarto certo de ter sido notado por ambos. Estavam tão irritados a ponto de ignorar sua existência? Pensavam que atitude tomar a respeito, ou ignorá-lo era a atitude que tomavam para corrigir? Sua haha não o olhava! Quem era Oono Hayato agora? Alguém sem amigos, ou familiares? Qual lugar pertencia à Oono Hayato… O que faria? Ainda poderia usar o nome de seus avós e ascendentes?
Teve vontade de correr para sempre, sem saber para onde. Apenas correr, para não estar ali. Começou a estudar o material que tinha em casa para distrair-se, mas não estava concentrado como de costume. A haha não lhe trouxera um suco, como habitualmente, e menos ainda cogitou lhe chamar para o jantar. Estranhando o ritmo da casa desceu e notou que já se alimentavam. Sentou-se.
- Itadakimasu, haha, chichi! - Hayato.
O pai levantou-se contendo-se para não lançar a mesa ao teto, notou apreensivo. Viu-o subir e bater a porta, para não mais sair até a chegada do dia seguinte. Baixou os olhos, precisava falar com alguém.
- Summimasen, haha. Não quis ser um desapontamento para haha-san, ou chichi-san.
- Hayato é grande e inteligente, entende as coisas. Meninos se tornam rapazes e as meninas, mulheres. Um deve juntar-se e não o contrário. Chichi está decepcionado com seu filho Hayato, e haha está magoada com Hayato. Haha sente… como se houvesse dado à luz a um menino quebrado, um menino que não sabe que é menino. Sente que deveria ter chamado Hayato-kun de Hayako, e. colocado vestidos para encantar os rapazes…
Ela o olhava de olhos úmidos do choro dos últimos dias. Sem real intenção de ser cruel, Hayato sentia cada palavra lhe perfurar, mesmo quando ela tentava sorrir - desastrosamente. Então desviava o olhar para uma parede qualquer.
- Summimasen, haha… Acredite, Hayato não quis que tudo isso acontecesse. Hayato queria falar antes em casa…
- Chichi está decepcionado… Insisti para que seu filho estudasse invés de esforçar-se nos esportes. Eu deveria ter deixado-o criar seu filho. Acredito que seu pai não tem mais filhos. O homem com quem Hayato ficou…
- Haha, não fiquei com Kazuo-chan. Ele me abrigou quando me embriaguei e cai na rua. Dormi no sofá, eu juro, e ele em seu quarto! Não tocou-me, juro!
Ela levantou-se com a mão erguida. Cansada de desculpas, cansada da tensão de três dias.
- Não engana-me, Hayato-kun. Vejo o mundo há mais tempo do que você. Se deixou ser seduzido por este homem. Levou meu menino, e deixou um Hayato-kohai no lugar.
Hayato afastou-se para o lado contrário daquela mulher que o teve nos braços desde sempre. Correu escada acima, e no banheiro do quarto vomitou o jantar. Não era o que queria. Era uma pessoa terrível, percebeu, porque não estimou o sentimento daqueles ao seu redor. Agora sua oka-san derramava as lágrimas que ele ali colocou.
- Kazuo-chan, o que devo fazer?
No dia seguinte Hayato não fora acordado pela manhã, como hábito de seu pai, ou convocado ao café pela mãe. Sem atrasos optou por não tomar o café da manhã. O tempo frio não lhe intimidou mesmo com o casaco aberto, a caminhada seria longa.
A bola de futebol quase o acertou, e o garoto que chutou-a desculpou-se ao passar correndo. Como poderiam estar tão alegres quando seu sekai desmoronava?
- Hai! - respondeu ao garoto.
A aula foi tediosa e odiada. O professor nunca lhe gostara - poderia apostar - e a matéria nunca lhe agradara. O segundo tempo foi educação física e pode jogar um pouco, para se distrair. Mas seus passes de basquete tão errados o tiraram do time, adversário de Koji.
- Hayato-kun, qual o problema hoje? Costuma jogar tão bem…
- Hai! Nada preocupante, professora. Estou apenas um pouco distraído hoje. - Hayato.
- Espero que esteja melhor em nossa próxima aula. Se precisar de alguém pra conversar, basta que me busque.
- Hai.
A professora afastou-se com o apito aos lábios, e no próximo sopro Hayato notou a forte dor de cabeça que tinha. Levantou-se para o vestiário. Certamente uma chuveirada ajudaria a relaxar, e naquele momento era o único garoto ali, caso os outros meninos o estranhassem.
Deixou-se ficar sob a água quente por um bom tempo, e tentava lembrar o exato momento em que vira Kazuo pela primeira vez como um modo de encontrá-lo. Qual era a cidade que fazia feira de alimentos no domingo? Talvez fosse capaz de encontrar no site estadual.
Terminada a aula retornou à sala para pegar o dinheiro do lanche, já que não havia o que levar pela manhã. Era o pouco que Kazuo lhe deixara e encarou a fila. Demorou um pouco, mas pegou tudo o que queria, lembrando-se de Kazuo ao pegar uma fatia de melão. Depois de pagar, entretanto, percebeu não ter lugar para si no refeitório. Seus amigos estavam de um lado e gostaria de ir para o oposto, mas todas as mesas estavam ocupadas, como sempre. Caminhou devagar, esperando que alguém finalmente terminasse e não ficasse de papo com o próprio grupo.
- Hayato-chan! Hayato-chan, koko ni! - Miyoshi.
- Hai, Miyoshi-chan.
A amiga parou de acenar apenas quando ele finalmente se aproximou. Guardava o lugar de frente para Koji, o mesmo de sempre.
- Ohayo. - Hayato.
- Tsuitachi. - Koji.
- Uwa. Que frios… O que aconteceu com vocês? São amigos para tudo!
- Nanimonai!
Koji levantou-se e se retirou rispidamente, deixando Hayato com a responsabilidade de solucionar juntos com os colegas, tentou sorrir.
- Nanimonai! Koji-san e Hayato discutiram, mas ainda são amigos. - Hayato.
- Koji-san?
- Koji-chan!
- Por que discutiram? Koji pareceu bem irritado com Hayato-chan…
- Hai.
Hayato prosseguiu com seu almoço silencioso, mesmo com os amigos que ainda atualizavam os acontecimentos do final de semana. Miyoshi ainda estava indecisa sobre qual faculdade cursar, o que transformara o almoço em família de domingo em uma grande confusão uma vez que sua mãe queria a melhor e o seu pai a mais próxima.
- Hayato. Hayato-chan, o sinal já tocou. Vamos logo, ou teremos falta. - Miyoshi.
- Hai!
- Hayato-chan, sente-se bem? Está desligado hoje.
- Minha cabeça dói um pouco. Vou à enfermaria e para casa.
- Hayato-chan…
Ele pegou o outro corredor para chegar à sala de enfermagem da escola, e segurou-se no armário repentinamente, a cabeça doía com mais força agora. Sentiu seu braço ser seguro com firmeza, com a vista momentaneamente embaçada.
- Koji-san! - Hayato.
- Miyoshi-chan disse que não sentia-se bem.- Koji.
- Estou bem, apenas dores de cabeça. Apenas não me alimentei direito esses dias.
Koji soltou-o ao perceber que poderia firmar-se de pé sem problema algum.
- O que falou era sério?
- Hai.
Hayato não achou boa ideia encarar seu amigo e baixou os olhos.
- Hayato-kohai, baka! - Koji.
- Hai!
- Vou ligar para sua casa, para seus pais virem lhe buscar.
- De wanai! Eles… não falam comigo desde que voltei para casa. Então… eles não virão me buscar, possivelmente, gomen
- Hai!
Koji deixou-o, como fizeram os pais e Kazuo, e Hayato prosseguiu até a porta onde foi prontamente atendido. Lhe deram um comprimido e vitamina c, já que chegava a época fria. Por fim foi liberado após passar na sala apenas pra pegar o material e guardá-lo no armário, não que fosse muito. Contornou a primeira esquina de cabeça baixa, agora era o estômago que não se mostrava bem.
- Oi! Hayato-chan! - Koji.
De bicicleta o amigo o seguia do portão da escola, parou um momento ao lado do colega sem olhá-lo, tinha a pasta com o material.
- Kuru, eu o levo para casa. - Koji.
Seguiram calados até parte do trajeto, quando Koji deixou de fazer o mesmo caminho, que contornava a quadra de Hayato, e deixou-o seguir o restante sozinho, indo para a sua casa ainda inventando uma desculpa na cabeça para chegar tão cedo. Se dissesse que estivera com Hayato, como reagiriam ser pais?
Aproximando-se de casa viu a caixa na sua calçada, começava a chover. O correio passara há horas, e ao ler a etiqueta entendeu porque a encomenda ainda estava ali. Para Oono Hayato, de Iwasaki Kazuo. Levou a caixa para dentro, não era pesada, ou muito grande. Estava curioso. Fez como se não tivesse chegado, sem se anunciar, de qualquer modo não seria recebido. Levou a caixa para cima, e ao abri-la encontrou também uma carta com a letra do remetente.

Kon’nichiwa, Oona Hayato-kun!Envio cadernos e materiais para que termine o período escolar . Gomenasai não poder comprar os livros, summimassen não enviar uma bolsa para o material.Aproveite os estudos e tenha boas notas. Iwasaki Kazuo acredita na inteligencia de Oono Hayato-kun.Cuide-se bem.
Iwasaki Kazuo.

O que Hayato achou mais curioso fora a assinatura no pé da folha, com duas peras desenhadas com lápis verde claro, quando sorriu escutou as batidas na porta e viu a mãe entrar, com as mãos nervosas e fitando apenas o chão. Depois de tomar algum folego finalmente falou, tentando um sorriso.
- Shokuji está servido, Hayato-kun. Chichi não comerá conosco hoje, está indisposto. - Haha.
- Hai, haha. Já estarei a mesa. - Hayato.
- Hai.
Quando ela saiu deixou a porta como havia encontrado, e Hayato pegou a velha bolsa de dois anos atrás para guardar o material. Estava feliz, mas sabia que teria outra refeição solitária e silenciosa, mesmo que estivesse acompanhado.



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Haha
Mãe, em modo formal.

Tadaima
'Estou em casa', dito ao chegar.

Chichi
Pai, em modo formal.

Oka
Mãe, em modo informal.

Sekai
Mundo.

Koko ni
Aqui!

Ohayo
Bom dia.

Tsuitachi
Dia.

Uwa
Uau.

Nanimonai
Nada. Coisa alguma.

De wanai
Não!

Kuru
Venha.

Shokuji
Refeição.