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terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

10: Terceiro amor

Na primeira aula de terça-feira, antes que pudessem abrir os livros e o restante do material a professora fez um breve anúncio. Ao lado dela diante da turma estava o novo colega de aulas.
- Este é Michio Kondo, que veio da escola modelo do distrito vizinho. Sejam bons colegas e o recebam bem.
- Hai!
- Por favor, cuidem de mim. - Michio.
As primeiras palavras dele surpreendeu a turma e desconcertou a professora, de tão afetadas que eram. Hayato o analisou com cuidado. Por que não tentava sequer esconder sua condição? Era declaradamente um pervertido ou fazia parte das estatísticas dos que sofreram abusos? Koji olhava preocupado para o, ainda amigo, temeroso de que tivesse a mesma ideia. O que seria de si se Hayato falasse?
- Bem, Michio-kun, pode sentar-se naquele lugar vago.
- Hai
Ao passar por Hayato, com duas fileiras de distância entre ambos, piscou-lhe um olho. Logo a professora retomava o controle dos ânimos. No intervalo Koji e Hayato tentavam retornar ao convívio que tinham, e observavam juntos o novo colega, já tão íntimo das meninas.
- Ele parece tão bem com isso... - Hayato.
- Não tenha a mesma ideia. - Koji.
- Não, não.
- Por que as pessoas aqui não aceitam.
- Hai, eu entendo. Mas não seria melhor?
- Esta louco? Seriamos zoados eternamente. Adeus possibilidade de uma boa faculdade, de convívio social, e de bom emprego.
- Você está certo.
À distância Michio e as novas amigas riam e brincavam. Momento ou outro importunados por algum grupo de amigos.
- Hey Michio, como vai seu namorado?
- Eu não tenho namorado. Na verdade é uma garota impressionante. - Michio.
- Isso é verdade, Michio-chan? - Lain.
Michio fez pose de fisiculturista, com uma voz mais séria.
- Hai, hai. Claro. Ela tem dois metros de altura, e faz luta livre.
Ele colocava um belo sorriso no rosto a todo momento, e olhava para Hayato por sobre o ombro às vezes, mesmo constrangido aquela distância. As meninas, como mariposas, juntavam-se todas ao seu redor.
- Você o conhece de outro lugar? - Koji.
- Não. Acha que ele está… Esta a fim de mim?
- A verdade é que esta olhando demais pra cá… Cara.
Koji olhou desapontado para o amigo, ainda sem acreditar que alguém que conhecesse alguém a tanto tempo tivesse um segredo tão perturbador.
- Você tem certeza, Hayato-san? É assim mesmo que é e o que quer? - Koji.
- Hai, Koji-chan. Quero dizer, acho sinceramente que me precipitei com você. Era algo como… A Miyoshi na pré escola. Summimasen, Koji-chan.
- Não me chame mais de Koji-chan, Hayato-san. Sinto agora como se o desconhecesse…
- Hai, é muito bom ver que voltaram ao normal, Koji-chan, Hayato-chan. - Miyoshi.
No tempo seguinte era educação física, por ser já época fria, perto do inverno, usavam calças e camisas de manga curta. O apito da professora soou forte.
- Hayato, pra a quadra!
- Gommen, professora-sansei! Hoje, antes de vir senti caibras!
- Hai, hai. Descanse e mantenha-se aquecido, Hayato-kun.
- Hai!
Sentou-se na arquibancada, assistindo-os jogar. Pouco depois, atrasado para a aula, entrou Michio pela porta principal. Hayato fez como se não houvesse visto, mesmo que tivesse procurado sentar-se ao lado dele. Mas então Michio puxou conversa com ele.
- Ah, que dia estranho… Nem quente e nem frio. Não dá pra sair de casa sem agasalho ou vesti-lo. Que dia estranho…
- Hai. - respondeu Hayato perguntando-se porque era com ele que o outro puxava assunto.
- Vi você no outro dia, quando vim conhecer a escola. Gomenasai novamente pela bola. - Michio. - Aquele que estava com você naquele dia, é o seu primo? Não parecia muito velho para ser seu pai.
- Ie.
- Que bom que tem um ani. Os meus já saíram de casa…
- Ele não é…
Hayato não terminou. Havia caído na armadilha e agora Michio sorria, discretamente.
- Você sempre estudou aqui? - Michio.
- Hai. - Hayato.
- E porque não faz educação física? Não gosta de esportes?
- Ie. Tenho uma condição de saúde que as vezes não me permite esportes.
- Ah, entendo. Eu não faço porque… uma coisa que todos os colégios anteriores me ensinaram é que aqueles que são diferentes não deve praticar esportes de contato. Se é que me entende… isso me ensinou o tempo que leva para um olho roxo desaparecer.
- Sinto muito.
- Você medo de mim, por que?
- Eu não tenho.
- Ah, tem sim.
- Eu só… não entendo…
- Por que gosto de garotos? Não é essa a questão. O fato é que eu deveria ter nascido mulher, e não um garoto. A verdade é que ninguém entende isso…
- Hai.
- Diga, Hayato-kun, você já beijou alguém?
- Hai! Já beijei muitas vezes, garotas, é claro!
- Hai, alguém experiente em beijos… Sua mãe não conta.
Michio olhava com aqueles pequenos olhos castanhos escuros, como se visse toda a alma de Hayato e pudesse flagrá-lo em suas mentiras. Ao olhar para Koji o amigo percebeu a atenção as suas ações. Michio seguiu-lhe o olhar e levantou-se de imediato.
- Olá Koji-chan! Não fique com ciúmes! Hayato-chan e eu estamos nos conhecendo melhor, e depois conversarei também com você! - Michio.
Tornou-se a sentar, com o mesmo sorriso misterioso. Hayato levantou-se repentinamente e os pés se  atrapalharam nos degraus, lançando-o de costas na fileira de baixo, e por pouco não acertou a cabeça ou machucou-se seriamente. Ainda mantinham distância e Koji observava o quão próximos ficavam.
- Oi, você está bem? - Michio.
- Apenas pare de dizer coisas como estas e estarei ótimo. - Hayato.
- Ah, não leve tão a mal… Afinal somos amigos e eu nunca faria algo pra prejudica-lo.
- Não somos amigos. Somos colegas de classe, e nada a mais.
Hayato afastou-se, pra depois esfregar o ombro dolorido da queda.
- Tão frio…

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ani = irmão mais velho