O menino virou-se para ele, sem tentar antes verificar em que local estava, e não o reconheceu. Sua cabeça doía mais do que nunca antes, e demonstrou o sofrimento de manter os olhos abertos.
- Como se sente?
Kazuo colocou os lábios em sua testa, lhe medindo a temperatura do melhor modo sem termômetro.
- A febre diminuiu bastante. Quer comer algo?
- Não importa quem é. Só pare de falar.
- Ei, está na minha casa. Não me mande calar a boca. Hoje era dia de ouvir rock no último volume… Qual o seu nome, no final das contas?
- Hayato, Oono Hayato.
- Oono Hayato, Sou Iwasaki Kazuo tem uma sopa de tomate. Você quer?
- Não estou com fome, obrigado.
- Imaginei algo assim, mas acredite. Ficar de estômago vazio não é a melhor escolha. Primeira vez que bebe, não é?
Hayato sentou-se repentinamente, tentando parecer disposto ou ao menos um pouco enérgico, mas o que conseguiu foi o amparo do sofá antes que ficasse de pé, e seu estômago embrulhou. Levou a mão à boca para conter o que quer que tentasse sair.
- Não se preocupe, acho que já vomitou tudo o que podia no meio da noite. Vem. Vou te deixar no banheiro pra que possa se limpar. Pode usar umas roupas minhas, se quiser. Embora vá ficar enorme em você.
Kazuo levantou-o pelos antebraços, mas Hayato soltou-se com o máximo de rudeza que pode.
- Não precisa. Tenho que ir embora.
- O dia vai amanhecer agora. Além disso não posso deixar uma criança irresponsável como você sozinha por aí, mesmo que seus pais não se importem.
- Do que está falando?
- Você mesmo disse. Vamos. Te deixo em casa assim que se sentir melhor. O banheiro é ali, na próxima porta à esquerda.
Kazuo deu algum tempo à ele, depois separou as menores roupas que tinha, quem sabe lhe serviriam, e um cinto escuro para segurar a calça no lugar. Os calçados não lhe preocuparam, porque Hayato estava de tênis no final das contas. Bateu de leve na porta e entrou com as roupas e uma toalha das duas que tinha, quando ouviu soluços.
- Ei, não chore, está bem. tudo vai se ajeitar. - Kazuo.
Hayato assoou o nariz, mas não parara de chorar. Não realmente. Sentado sob a água quente que caia obrigou Kazuo a desligar o chuveiro para que pudesse envolve-lo na toalha seca. Fez-o levantar e levou-o para a sala. Sentou-o novamente e ao seu lado, sacudiu-o de leve.
- Ei, o que está acontecendo, ãh? eu não sou ninguém, pode me contar...
Ainda com os olhos baixos o garoto não quis responder.
- Koji é o nome do seu pai? Se quiser posso telefonar pra sua casa. - Kazuo.
Hayato olhou-o surpreso ao mencionar o nome, e pareceu rapidamente vermelho como se tivesse febre novamente. Baixou os olhos para o canto mais distante da sala, entre contradito e traído. Mais surpreso ainda quando Kazuo lhe passou o braço pelos ombros tentando lhe confortar.
- Falei com o Koji depois da escola, e ele… Riu na minha frente, diante de todo mundo, dos nossos amigos. Ele não falou nada mas... Quando cheguei em casa a mãe dele havia falado com a minha, e ela telefonou para o meu pai, então…
- Ah, entendi.
- Não, você não entende. Eu acho que eles…
- Você é o que é, e acha que eles não gostam do que você é. Bem… então confirme se eles te amam ou não.
- Você disse que…
- Os pais nunca deixam de amar seus filhos, mas são teimosos e orgulhosos pra porra... E não tem problema ser o que é. Na verdade, você deve ser muito novo pra já decidir como quer viver, mas não pra pensar sobre isso.
- Não entende? Eu falei para ele... que o amava. Ele sempre foi meu amigo e…
- E descobriu que não era. Segunda-feira você descobre se é o mesmo com seus pais.
- Eles não se importam se eu sou…
- Meus pais também foram assim...
Kazuo analisava o teto, para que o garoto não visse sua expressão de desapontamento por haver mais pais orgulhosos como o seu, que colocam a sociedade acima dos filhos.
- Seus pais... Eeh!
Hayato quase caiu do sofá ao afastar-se ainda mais surpreso e Kazuo preferiu se levantar, para a cozinha, tentando tornar o assunto menos desconfortável. Hayato levantou-se também.
- Vista-se antes que fique resfriado, e venha comer algo. Não há nada no seu estômago e suas roupas estão de molho. Quando secar pode usá-las, e te levo em casa segunda-feira.
- Não precisa levar-me, realmente. Eu posso ir o quanto antes. Arigato¹.
Curvou-se em sincero agradecimento pelo cuidado que Kazuo lhe tivera, e esperando não ter incomodado. Kazuo voltou-se com a carteira na mão.
- O emblema diz que você não é desta cidade. Posso lhe dar dinheiro para o ônibus ou metro, se souber chegar em casa?
- Que cidade é esta?
- Coma algo e descanse, sem pressa. Pode ligar para casa mais tarde.
Hayato achou uma boa ideia ao menos se vestir, deixaria a ambos mais confortáveis. Fez-o no banheiro e em um passo estava de volta à sala.
- Por que… está sendo tão legal comigo?
- Porque ontem você quebrou o cache-pot do meu prédio, e essa tarde você vai me ajudar a consertá-lo.
- Summimassen².
- Hai³. Agora sente-se e coma.
Kazuo sentou-se seguido à ele, ignorando todas as normas de etiqueta que poderiam haver, o que surpreendeu Hayato que o observava, aguardando que fossem cumpridas.
- O que houve? Vamos, coma! Não se importe. Aqui não tem aquelas velhas tradições chatas. Agradeço apenas no momento em que recebo o meu pagamento.
- Hai.
Hayato comeu pouco, ainda enjoado e com a cabeça latejante. Ao terminar lavou seu prato, e ofereceu-se para organizar a cozinha mesmo sem pedir ou Kazuo dizer algo. Não percebia, mas lhe era observado cada movimento. Depois o menino cuidou das roupas, das suas que estavam misturadas às do outro, e Kazuo achou melhor descansar um pouco, no quarto, enquanto Hayato fazia qualquer coisa.
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Arigato¹
Obrigado.
Summimassen²
Hai³
Sim.
Hai³
Sim.
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