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terça-feira, 5 de janeiro de 2016

05: Encontro desagradável

Hayato acordou estranhando estar coberto e no sofá, quando no dia anterior estava deitado no chão. Isso poderia dizer que Kazuo lhe tinha algum afeto? Seria de fato como um primo, ou apenas era assim que cuidava de crianças?
- Tenho 12 anos, não sou uma criança. Não posso me portar como uma…
Levantou-se e preparou o café da manhã, e Kazuo logo surgiu, juntando-se à ele na cozinha, já aquecendo a água para um café.
- Ohayogozaimasu¹! - Kazuo.
- Hi². - Hayato.
- Descansou bastante, hum. Desculpe por não cuidar de você devidamente.
- Hum?! Tem cuidado de mim, desde antes de eu o conhecer. É atencioso comigo. Arigato.
- Hai. Não há de que. Mas à noite, ontem, você desmaiou. Estava com febre de novo, então… Mas já está melhor agora? E a dor da ressaca, passou?
- Hai. Hai. Não precisa se preocupar tanto comigo…
- Está errado. Sou responsável, e você é minha responsabilidade enquanto estiver comigo.
Hayato riu do convencimento de Kazuo, que apontava para si mesmo com o polegar e erguia o queixo com algum orgulho. O homem por um momento surpreendeu-se com o sorriso e tentou desculpar-se.
- Desculpe, sempre me disseram que eu me metia em encrencas, quando criança, porque sou sempre muito convencido. Gomenasai.
- Não tem problema.
Kazuo notou-o voltar ao trabalho com mais animo, ao cortar a maçã para dois. Apoiou-se de costas na bancada da pia.
- O que quer comer no almoço. - Kazuo.
- Eu não sei.
- Bem, toda a comida do final de semana já acabou, então precisamos fazer compras.
- Gomen…
- Não estou te culpando. Eu te trouxe para a minha casa, então minha culpa. Então vamos comer, e vamos às compras. Há uma feira aqui próximo, podemos ir até lá, e comprar coisas para o almoço. O que geralmente come nos finais de semana?
- Às vezes comemos fora, às vezes era preparado carne.
- Ah… Não prometo carne, mas vamos ver o que podemos fazer.
- Hai.
Definitivamente mais animado, Kazuo percebeu.
Às nove horas Kazuo já havia arrumado o pequeno apartamento, com ajuda de seu novo amigo, e pegou apenas uma camisa leve para colocar por cima da regata que usava. Caminharam pouco até a feira, com seus ruídos, cheiros e cores. Hayato não costumava sair à locais como feiras com frequência, e parecia encantado com tudo, conhecendo ervas e frutas que antes desconhecia.
- O que acha de frango para o almoço? - Kazuo.
- Hai.
Parou em uma banca de frutas tropicais, observando peras de uma cor que nunca havia visto antes, e bananas de todos os tamanhos. Quando deu por sua falta Kazuo retornou feliz por não ter se perdido dele.
- O que esta olhando aí? Quase que nos perdemos um dos outros. Hum, gosta dessas frutas? - Kazuo.
- Quando eu nasci fiquei muito tempo no hospital, porque não tive potássio suficiente e tiveram medo que eu morresse. Por causa do coração. Então sempre como potássio nas minhas dietas. - Hayato.
- 'Nas minhas dietas, nas minhas dietas'. Hai, hai. Veja-me três pêras e um cacho pequeno de bananas, por favor.
Quando terminou as compras entregou a sacola para Hayato.
- É o máximo que posso fazer por você. Está há dois dias fora de sua dieta de potássio.
- Arigato!
- Agora vamos comprar alguns temperos, e depois você me ajuda a preparar.
- Hai. Você cozinha bem, Kazuo-chan. A sopa de tomate não estava ruim, embora eu nunca tenha comido sopa de tomate.
- Nunca comeu sopa de tomate? Aquilo não foi exatamente uma sopa fria de tomate. Mas faço uma para o almoço, e para o jantar sopa quente, de inhame.
- O que é inhame?
- Não conhece inhame? É uma raiz. Ali, tem naquela banca. Depois compramos coentro e alho pra uma sopa, e cebolinha e gengibre para a outra.
- Como aprendeu a cozinhar?
- Eu posso te ensinar, assim que pudermos.
- Arigato!
Kazuo não notava mais tensão em Hayato, que agora sorria e não preocupava-se mais com o acontecido, como se uma nuvem tempestuosa finalmente lhe houvesse deixado o espírito em paz. Agitou-lhe os cabelos ruivos.
- Kazuo!
O homem muito mais velho do que Kazuo aproximou-se de ambos quando já prestes a pegar as últimas sacolas. Kazuo pareceu surpreso, e ao mesmo tempo desconcertado com a presença do outro.
- O… oi, Hiroíto-senpai. Não o vejo na feira com frequência.
- Ah, é verdade. Mas hoje precisei vir. Dizem que a pesca de camarão e caranguejo fora magnífica nos últimos dias, e possivelmente na semana teremos frutos do mar, no almoço e na janta. Deveria juntar-se à nós.
- Agradeço o convite, mas não poderei. O estudo e o trabalho ocupam-me todo o tempo.
- Hai, hai. Vejo que está bem ocupado.
Hayato não gostou do olhar intimidador por trás dos óculos do homem que o observava, e tampouco Kazuo pareceu confortável ao encontrar ali inesperadamente aquele homem, de terno e gravata.
- Muito belo e muito jovem. Lembra-me Kazuo-kohai³. Como chama-se? - Hiroíto.
- Este é o meu primo, e estamos com pressa ou nos atrasamos para compromissos. - Kazuo.
- Uma pena, realmente. Devia trazê-lo, Kazuo-kohai… Seria uma atração maravilhosa. Sabe, estamos sem produtos ruivos, eles fazem muita falta. O lucro caiu drasticamente, e tive de demitir aqueles que não… produziam tanto lucro.
O braço de Kazuo moveu-se mais depressa do que os olhos de Hayato acompanharam, mas quando percebeu era a camisa do outro presa em seu punho com força o suficiente para que as veias de seu amigo pudessem ser vistas sob a pele.
- Não ouse aproximar-se dele, não ouse tratá-lo como um objeto. Não ouse me deixar vê-lo novamente dirigir a palavra, ou estar no mesmo local que ele. Eu te aviso, Hiroíto! - Kazuo.
- Muito irritado, muito irritado. Está bem, se não quer que eu o veja, não deixarei que veja acontecer.
- Eu falo sério, EU O MATO! Yarô!
- Não dá mesmo para conversar com você, não é mesmo, Kazuo-kohai. Bem, também tenho compromissos. Sayonara, sayonara.
Quando foi embora Hayato observou o quanto Kazuo tornara-se nervoso, ainda assim mesmo quando Hiroíto deixara a praça da feira. Levou algum tempo para que pudessem finalmente caminhar, de volta para casa.
- Kazuo-senpai.
- Chan.
- Ka-chan… Por que aquele homem… O irritou tanto?
- Ele não é nada, nada. Não se preocupe. Eu o teria batido, e estaria na delegacia, se você não estivesse comigo. Arigato, Hayato.
- Mas…
- Não se preocupe comigo! Estou bem.
Retornaram calados, mas uma vez dentro do prédio Kazuo suspirou aliviado, e dentro do apartamento retornara ao que era.

______________
Ohayogozaimasu¹
Bom dia.

Hi²
Abreviação de 'bom dia'.

Kohai³
Tratamento inferior.

Yarô
Desgraçado.

Sayonara
Adeus, tchau.

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