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segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

04: Pequeno e remendado

A planta no cache-pot era maior do que Hayato, no final das contas, e o trabalho em equipe fora essencial, revezando-se constantemente entre as tarefas mais pesadas. Kazuo apoiou o pedaço de carâmica que caira enquanto o mais novo passava o barbante em volta, como se embrulhasse um presente com um laço, e depois, para a amarração ficar firme, Hayato empurrou a placa quebrada com as costas para que o mais velho pudesse dar os nós mais firmes.
- Ótimo. Ótimo. Agora, depois de um banho, podemos relaxar.
Um rapaz da vizinhança, que passava com sua avó, observou-lhes o último comentário e resolveram acelerar o passo para deixar o local o quanto antes, sendo Hayato o que antes notou, e Kazuo apagou o cigarro na terra do vaso de planta.
- Não ligue. Já me conhecem das redondezas. Devem estar me julgando pedófilo. Ai ai ai, espero que não chamem a polícia. - Kazuo.
- Summimassen...
- Não se preocupe. Tudo pode ser resolvido com uma boa conversa. Agora vamos. Aqui está meu telefone. Vou tomar um banho. Fique à vontade.
Kazuo demorou-se um pouco mais no banho, sem saber se Hayato já decidira telefonar ou se ainda estava na linha. Detestaria espionar e aproveitou bem o conforto da água quente. Hayato estava na pequena sacada da única janela, que dava à rua, e não percebia mostrar ao mesmo tempo o quão inocente e quão maduro poderia ser.
Ele não ouviu os passos se aproximarem por trás de si, examinando seu pescoço alongado, e a pele que percebera ser morna. Kazuo gostaria de poder lhe medir a temperatura novamente, com os lábios, e quando voltando para casa, tão esguio entre seus braços… Em que poderia estar pensando? Ainda preocupado? Telefonara para casa? Seus pais foram cruéis? E na escola sofreria bullying, ou Koji guardara segredo?
- Hayato. - Kazuo.
- Kazuo. - Hayato.
- Conseguiu falar com seus pais?
- Minha mãe atendeu, mas… ela não falou comigo. Ouvi meu pai. Disse para ela desligar se fosse eu. Eu… Eu disse que estava bem, que estava na casa de um amigo e…
- Eles vão falar com você. Segunda-feira vai à escola, e depois para casa. Não se preocupe.
- Mas quando…
- Vá tomar o seu banho enquanto me visto e preparo o jantar. Sua roupa já está seca. Se demorar muito, eu vou lá te tirar, igual de manhã.
- Okay.
Jantaram com calma, e mais uma vez foi iniciativa de Hayato a organização da cozinha. Era o mínimo por toda a ajuda, a hospedagem e a comida. Sentou-se também no sofá de modestos dois lugares e aceitou o programa que via.
- São oito horas. O que costuma assistir nesse horário?
- Nada.
- Como nada. É o horário dos melhores programas. Notícias do dia, auditório, novelas…
- É o horário dos estudos da noite. Do jantar até a hora de dormir.
- Mesmo? Passa o dia inteiro na escola, e faz às tarefas, e ainda tem que estudar antes de dormir?
- Era bom, sempre tirei notas altas, mas nas últimas semanas, não estudava como sempre.
- Não deveria ficar sozinho se tem problemas a resolver.
- Não gostaria de voltar pra casa, ou pra escola… Gostaria que o mundo acabasse, ou ficar aqui pra sempre… Teria problema Hayato morar com Kazuo-chan…
- Sinceramente eu não me importaria. Você pode cuidar das coisas quando eu estivesse fora, à tarde, e certamente nos divertiríamos muito juntos, jogando e vendo tv. Mas você ainda é menor de idade, e o governo interfere livremente sobre isso. Fora isso eu não teria problemas, mas você precisa aprender a lidar com o que os outros acham e dizem. Se você não se importar, se sabe quem é e o que quer, deixe-os viver suas vidas como quiserem. Cada um deve se concentrar apenas em ser feliz, Hayato badi. Está me ouvindo?
Kazuo parou de prestar atenção à tv para então olhar o garoto apoiado em seu braço. Estava de olhos fechados, mas como pudera dormir no meio de uma conversa? Sacudiu-o pelos ombros, chamou-o, mas sem sucesso. Estava novamente com febre, e não notara o esforço que tivera durante todo o dia, por mais cuidadoso que fosse, e não poderia imaginar a enxaqueca que suportara. Deitou-o no sofá dessa vez, mais cuidadoso e confortável.
- Badi baka.
Diluiu o comprimido na água e lhe deu de beber. Apoiou a cabeça no travesseiro com cuidado e o cobriu. Estudou durante duas horas, lhe monitorando a temperatura, e então aceitou descansar em sua própria cama, invés de ter outra noite insone. Deixou à luz da sala acesa, e na mesa um jarro de água e um copo, caso Hayato despertasse com sono.

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